quinta-feira, 3 de maio de 2012

= A FADA E LOBO SOLITARIO =


Havia um lobo que vagava pelas estepes, solitário e silencioso, um lobo diferente dos outros lobos da matilha, este lobo tinha algo indefinido dentro de si. Vagava a anos sozinho, não tinha mais lembrança de seus companheiros de matilha, havia muito tempo já que tinha-se separado da matilha, em uma noite que farejou algo que deveria caçar, algo que apenas este lobo era capaz de farejar. Nesta noite praticamente esquecida no tempo, este lobo procurou essa presa, subiu morros, pulou pedras no caminho,  embrenhou-se em florestas escuras onde as copas das árvores obstruíam a luz da lua, correu silencioso por desertos mas nada encontrou. Após muitas horas vagando, próximo do amanhecer, devorou alguns pequenos animais e dormiu frustrado e meio faminto.

Não muitos dias de distância de onde vagava esse lobo, havia uma fada angustiada, uma fada que ainda não sabia muito bem quais eram seus poderes, e que por isso ainda não havia assumido nenhuma missão que quisesse desempenhar por muitos dias. Concluiu todos os níveis da escola de fadas, mas diferente das outras fadas, não tinha paixão pelo trabalho de fada, cumpria suas tarefas de fada, obedecendo as escalas determinadas pelo Departamento  de Missões do Reino das Fadas, mas ela vivia seus dias agindo mecanicamente, sem que a mágica comum aos seres supernaturais preenchesse seu coração. Esta fada era um mistério para suas colegas fadas, ela foi em vários cursos na escola das fadas a aluna mais brilhante, mas não se definia, não fazia mais missões que as programadas pelo Departamento de Missões do Reino das Fadas, vivia sua vida sem brilho nos olhos, o que intrigava suas amigas mais próximas. Elas não entendiam qual era o motivo da sua angústia, e nem porque a mágica contida em seu coração não brilhava com toda a força.

Em uma noite de lua cheia, o lobo solitário escalou como sempre fazia nas noites de lua cheia, o morro mais alto da área que escolheu como refúgio de caça, de onde podia ver todo o vale, onde outros animais não costumavam vagar e onde ficava o mais próximo que sua condição de lobo lhe permitia ficar da lua. Neste lugar, este lobo uivava longamente, abria as comportas do seu coração e deixava correr um caudaloso sentimento de sede de viver, um sentimento que queimava dentro de si, e os uivos deste lobo ecoavam pelo vale, fazendo com que muitos animais eriçassem o pêlo, ainda que estivessem seguros, muito longe da possibilidade de serem caçados por aquele lobo. Uivou por algumas horas, até que aplacou sua agonia, ou cansou-se, e adormeceu. 

 Pouco tempo depois de adormecer , o lobo foi acordado por uma sensação boa, uma intrigante alegria. Abriu os olhos e viu que não muito distante de onde estava, refestelada nas pétalas da flor de um cacto, havia um pequeno ser. Este ser dormia, e o lobo aproximou-se silenciosamente, como quem caça, mas não tinha a menor intenção de ferir este ser, algo muito belo o atraía para este ser. Era uma fada, que dormia deitada de lado, com as mãos juntas, e as asas suavemente balançando movidas por uma leve brisa. A fada sentiu a presença do lobo e acordou, mas algo lhe dizia que não devia temer um ataque deste lobo. Levantou-se e se pôs, sentada sobre os joelhos, as mãos sobre suas coxas, fitando aquele lobo silencioso. Ela também nada falou. Apenas olharam-se. O olhar do lobo para a fada, o olhar da fada para o lobo era o mesmo olhar. Um olhar de quem busca respostas sim, mas um olhar de uma serenidade alegre, de uma paz do encontro com o que é bom. Assim, desta forma, tranquila e feliz, se olharam por algumas horas, que para eles passaram como minutos, até que a fada recebeu uma missão e teve que partir. O lobo não teve outra coisa a fazer, voltou para sua toca e dormiu, para renovar suas energias para outro dia de caça.



Depois desse encontro improvável, todas as noites o lobo voltava a este mesmo lugar, e aguardava a fada, que só não passava por lá quando uma missão que a ela havia sido confiava a impedia. O lobo solitário e a pequena fada angustiada se olhavam por muitas horas, e depois dormiam um ao lado do outro, sonhando juntos em sintoniaUma noite dessas, o lobo olhava a lua enquanto a fada dormia ao seu lado, e a fada teve um sonho que a fez despertar sorrindo, pois havia visto algo que explicava muita coisa em sua vida e na vida do lobo também!
Ela sonhou que em uma outra vida, houve um casal que se amava muito, a filha de um fazendeiro muito tranquilo, alegre e feliz e um cavaleiro da nobreza, que havia estudado arte, havia sido educado nas artes da pintura, da escultura, havia lido os clássicos da literatura mas que ao retornar das cruzadas resolveu continuar ao lado dos companheiros de batalha e integrar a guarda do castelo. Esta jovem tinha uma beleza comum, agradável à vista, mas que somente revelava seu real valor ao observador atento, pois guardava dentro de si um tesouro que poucos percebiam. Este tesouro era seu olhar, um olhar que deixava cair os mantos do recato e os véus da timidez e brilhava para quem pudesse abrir as portas de sua sensibilidade. Quando  ela deixava esse olhar aflorar, quem tivesse dentro de si a sensibilidade para perceber que uma conexão entre almas estava acontecendo através daquele olhar mágico.

Um dia, não muito tempo depois que estes dois jovens se conheceram, estavam no meio da estrada, completamente absortos nesse olhar que dispensa palavras quando não se deram conta de que estavam obstruindo a passagem dos viajantes, e por um terrível capricho do destino, o viajante a quem causaram este inconveniente era uma duquesa cigana, uma feiticeira maligna que havia casado-se com um duque depois de manipular a emoção e tornar-se praticamente dona dos pensamentos deste nobre. A duquesa impacientou-se com a parada de sua carruagem e esgueirou a cabeça para fora da carruagem para ver qual era o insolente que estava atrasando sua jornada, e então viu a mágica daquele olhar entre o cavaleiro e a camponesa. Seu coração ficou frio ao ver o quanto de mágica havia naquele olhar, entre duas pessoas sem nenhum conhecimento nas artes da feitiçaria, uma mágica que aquelas pessoas ou haviam descoberto intuitivamente, ou que já tinha nascido com elas. A duquesa feiticeira correu-se de inveja e jurou amaldiçoar aquele casal. Como vingança, pelo inconveniente causado e principalmente, por inveja da mágica daquele olhar, ela secretamente foi a casa da camponesa no meio da noite, fez um ritual macabro amaldiçoando aquela jovem, e na mesma noite fria e de neblina cerrada, repetiu o ritual no teto do alojamento dos cavaleiros, exatamente sobre a cama onde repousava o nobre cavaleiro. 

Como resultado dessa maldição, ambos amantes foram atacados por doenças que consumiram o corpo em poucas semanas. A camponesa morreu em uma quinta-feira, e na terça-feira seguinte, faleceu o cavaleiro.

Mas o que a Duquesa feiticeira não sabia era que havia destruído o corpo daqueles jovens que se amavam e ainda estavam se conhecendo, mas não conseguiu destruir nem a alma deles, nem a magia daquela conexão entre eles.

Aquelas almas renasceram em mundos diferentes, mas não distantes, tanto é que o reencontro, ainda que não se dessem conta nos primeiros contatos, era inevitável.

A alma que vivia no corpo da fada era a mesma que vivia na camponesa, e a alma que viveu no corpo do cavaleiro era a alma que vivia agora no lobo solitário. Agora a fada sabia disso. E mais. Sabia como desfazer a maldição e tornar possível que a história daquele amor pudesse continuar, para que os sonhos dos amantes pudessem se tornar reais, tudo aquilo que eles pensavam tantas vezes, cada um em sua casa, sonhando acordados, conduzidos pelo barco da imaginação impulsionado pelos ventos suaves da paixão, tudo isso poderia deixar de ser sonho para virar vários agoras  e passarem para a eternidade em forma de lembranças felizes.

A fada nada disse ao lobo, mas começou a por em prática seu plano para reverter a maldição.
Ela deveria percorrer o mundo por 70 dias, soprando no coração de pelo menos 9 pessoas por dia uma leve respiração de sabedoria, de alento, de amor pela vida, de serenidade, do que quer que fosse que aquela pessoa estivesse precisando para que em um breve segundo, sua mente se abrisse para a verdade, libertasse-se das amarras do pensamento negativo, e tivesse lucidez para ver que elas tinham tudo o que precisavam para superar momentos difíceis em suas vidas. As emoções que em momentos difíceis embotam o pensamento, e cegam a sensibilidade das pessoas se dissipavam com o sopro mágico dessa fada como uma fumaça negra que desaparecia ante um vento forte.

A fada assim fez, cumpriu sua missão com fervor durante não 70, mas durante 95 dias, e ainda ensinou como desenvolver a veia mágica que ela usava para dar esse sopro no coração dos aflitos, e treinou quantas fadas se interessaram por aprender a mágica. Mais de 300 fadas aprenderam a mágica, e passaram também a percorrer o mundo espalhando esse sopro mágico, e a ensinar a mágica a fadas de outros reinos.

Quando viu que sua missão havia sido abraçada por legiões de fadas pelo mundo afora, sentiu que era hora de reverter a maldição, e foi uma última vez ao encontro do lobo solitário. Com toda a força que sua missão havia desenvolvido, sua mágica havia se tornado maior que a de qualquer fada, e como ela sabia que havia conquistado esse poder através dos méritos de suas boas ações, sem hesitar entoou as palavras necessárias para quebrar a maldição, com muita alegria e amor no coração, fechou os olhos por alguns segundos e esperou. 

Quando abriu novamente os olhos, era novamente uma mulher, e suas mãos estavam nas mãos de um homem moreno, de sorriso tranquilo e aquele mesmo olhar de outras vidas, um olhar que abria as portas para a conexão entre duas almas. Naquele momento, havia terminado uma história e começado uma vida.

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